sexta-feira, 1 de abril de 2016

Mulheres e suas dores: uma questão cultural.


"Não se nasce mulher, torna-se", disse Simone de Beauvoir. O problema é que uma maneira de tornar-se mulher tem virado um problema. No imaginário coletivo, a dor está associada a todos os fenômenos fisiológicos que afetam especificamente as mulheres: a menstruação, a primeira relação sexual, gravidez e, claro, o parto. Qualquer conversa entre amigos ou colegas em torno destas questões surge incansavelmente este mal, com a complacência tranquila, como se fosse óbvio para todos que a dor é inerente à natureza feminina. No entanto, pensando um pouco (bastante) sobre o assunto, percebem-se muitas indicações que esta é essencialmente uma construção social e cultural.

Já no início da adolescência, as meninas levam uma pancada dos adultos “bem-intencionados” sobre todos os aspectos de sua condição dolorosa. Na escola, os planos de aula para os jovens sobre a puberdade e sexualidade contém a palavra "dor" associado exclusivamente com a fisiologia feminina. E mesmo o clitóris tendo surgido há não muito tempo em livros e folhetos sobre a sexualidade dos jovens e a palavra “prazer” já não é reservada exclusivamente para o mundo masculino, os módulos educacionais mais progressistas e igualitários continuam a associar o sofrimento apenas à sexualidade feminina. A palavra “dor” é sempre associada à primeira relação sexual feminina, o que nos leva a pensar que os meninos nunca vivem “a primeira vez”. Em seguida é a vez do aborto (que apesar de ser ilegal no Brasil e assunto para uma outra hora), abordado como uma “situação dolorosa” mesmo antes de abordar as doenças sexualmente transmissíveis. Portanto, não é surpreendente quando se ouve muitas adolescentes dizerem que “ser menina é um problema”. 



A concussão não acaba na adolescência, não há trégua para as mulheres na fase adulta. Elas serão regadas de informações oficiais de saúde sobre todos os males da gravidez e, é claro, sobre o sofrimento incomensurável que enfrentarão durante o parto.

A associação entre dor e feminilidade também se manifesta por convenções sociais. Não é mal vista uma menina que solicita a ausência das aulas de educação física evocando o sofrimento relacionado com a sua condição, porém ela não pode usar do mesmo argumento para contemplar a “ascensão” à fase adulta. Espera-se que uma adolescente confesse seus medos em relação às dores da primeira relação sexual, mas é inconveniente que ela revele seus desejos ardentes de aproximação carnal com os meninos em sua classe. É normal para uma mulher grávida lamentar-se com seus colegas sobre a sua dor nas costas, mas é indecente que diga a sua excitação produzida pelos movimentos do feto em seu ventre. E quando se trata de descrever o seu parto, é conveniente que as mulheres narram, sem o menor constrangimento e com um monte de detalhes e superlativos, todas as torturas que elas suportaram, mas que seria incongruente descrever o poder de sensações e ondas de prazer que sentia naquele momento.

Tudo contribui por normas sociais que a dor está associada ao sexo feminino. Enquanto a sociedade ocidental impõe à capacidade dos homens de suportar a dor como um sinal de virilidade, ela exorta às mulheres a mergulhar na dor para afirmar sua feminilidade. Ainda mais especificamente, ser um homem é capaz de realizar grandes ambições e vencer batalhas considerando a dor como uma anedota. Ser uma mulher a dor está em primeiro plano, como o elemento essencial da vida, substituindo todas as outras considerações, a ponto de aniquilar qualquer negócio.

Na verdade, a dor da menstruação pode impedir o acesso das mulheres aos mais elevados cargos de remuneração igual aos homens por sua suposta indisposição durante vários dias por mês. Várias indisposições explicam a falta de interesse da mulher ao sexo, e mascaram toda a consideração sobre a magia e maravilhas do processo de gravidez. O sofrimento se torna a questão central do parto, a ponto de negar a capacidade intrínseca das mulheres de colocarem suas crias no mundo e esquecer a essência da recepção desse novo ser.

Embora seja apenas uma construção cultural e social, a dor é muito real em muitas mulheres, e não deve ser negada pelo consentimento "isso é coisa da sua cabeça." A exaltação do sofrimento impulsionado ano após ano, as crenças geradas e a construção identitária que ela implica produzem uma impregnação no corpo das mulheres mais forte do que um simples pensamento racional. Se o ambiente cultural e social pode impor às mulheres esse mal, ele poderá também mudar permitindo-lhes viver sem esses tormentos.

Fernand Lamaze e Grantly Dick-Read foram dois obstetras que trabalharam intensamente a forma de nascimento e fizeram parte de um longo caminho que ainda é preciso percorrer. Com eles milhares de mulheres em trabalho de parto puderam dar à luz sem dor a partir de uma preparação a fim de desconstruir a imagem cultural de partos dolorosos e assustadores. É possível ir mais longe na luta contra o próprio princípio da dor como um componente da identidade feminina e substituí-lo com valores positivos.

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