sexta-feira, 3 de julho de 2015

Os inimigos da amamentação

                          * Gravura retirada do livro: You, me and the breast, de Monica Calaf

Desde quando me descobri grávida eu iniciei um processo de busca bem intensivo. Bom, sou uma cientista e como toda boa pesquisadora, me dediquei a fundo no processo de busca de evidências para construção e reformulação de alguns valores. E numa dessas me fortaleci no desejo de amamentar exclusivamente e em livre demanda meu bebê. Mas, eu não imaginava o que estava a me esperar!

Por que na França o desmame é tão precoce?

Pois bem, como alguns de vocês sabem eu estou morando na França e como diz uma amiga da minha irmã: as francesas adoram uma formulazinha. E infelizmente é verdade! E aparentemente isso se intensificou com a legalização do aborto em 1975, do qual acarretou em enormes ameaças a médicos que o praticavam. Com uma pressão enorme (sobretudo de cristãos, eu até arriscaria da igreja nesse caso), ameaças de morte, e ao mesmo tempo havendo um crescente lobby das indústrias lácteas, médicos, com o intenção de diminuir o número de abortos e se livrar dessa culpa  começam a incentivar o desmame precoce. Até hoje, 40 anos depois, médicos que realizam o abortamento são mau-vistos dentro da profissão.  O incentivo ao desmame precoce parecia também uma das alternativas para uma mulher, que não desejava ser mãe, se ocupar "menos" do seu bebê e poder sem medo e peso na consciência voltar ao trabalho, desmamar seu bebê e deixá-lo aos cuidados de outrem. Lembrando que durante muitos anos a mulher lutou para poder ter direito ao trabalho, no entanto a liberdade até hoje não foi conquistada. Na França a licença maternidade é de 3 meses.
E então aos poucos foi se formando esse mau-hábito de desmame precoce. Há ainda outras razões defendidas pela sociedade para o desmame e ingestão precoce de leite artificial, além claro da ausência de incentivo e apoio moral às mães, que como todos sabem, é extremamente essencial. Uma mãe que é orientada por um bom profissional e que recebe o apoio moral daqueles que a rodeiam certamente persistirá na amamentação exclusiva E em livre demanda.
Diferentemente da nossa cultura brasileira, da qual somos super acolhidas e rodeadas de toda família, aqui até mesmo os médicos (obstetras e pediatras) sugerem que a nova família se isole. O que raramente facilita para uma recém mãe que precisa de ajuda e apoio emocional para se ocupar desse novo serzinho, ao lado de um recém pai que é quase sempre mais leigo ainda.
Moral da história, bom vamos desmamá-lo assim o pai ajuda no revezamento de mamadeiras, a mãe se "recupera" mais facilmente, e em pouco tempo bebê dormirá a noite inteira (fazer suas noites, traduzindo ao pé da letra como se diz aqui). Aliás essa a 1a pergunta que TODOS (sem exceção) fazem ao ver uma mãe com um bebezinho: il fait déjà ses nuits?
Além claro da escassez da licença maternidade. Com 3 meses, a mãe se vê obrigada a desmamar seu bebê para deixá-lo na babá e/ou na creche, e muitas dessas alternativas não aceitam como opção o leite materno para ser administrado ao bebê com o argumento de não se responsabilizar caso haja um problema no processo de armazenamento do leite materno. Ao contrário da facilidade que é simplesmente misturar algumas colherinhas de pó na água.
É claro e, felizmente que há exceções, mas essas ainda também sofrem com a falta de apoio e olhares tortos quando se expõem.

PS: quero deixar claro aqui que esse texto não tem em nenhum momento a intenção de julgar você mãe que, por falta de conhecimento, apoio ou por uma real necessidade do bebê, precisou se render ao uso do LA.
 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário